Depois da festa…

abril 15, 2011 at 8:27 pm (Uncategorized)

Segurando a respiração fortemente, como se algo lhe sufocasse, segurando fortemente a madeira da cabeceira da cama, e, e, e, enfim o gozo infinito de 9 segundos…

Após a “la petite mort” só tinha pensamento para três coisas, a primeira que sexo mesmo ruim é bom, a segunda que já não lembrara mais, ou não sabia o nome da pessoa da qual trocou olhares, suores e fluidos… a terceira que só conseguia pensar em acender um cigarro.

– Você fuma?

-As vezes…

-E agora?

-E agora o que?

-E agora você fuma? Isso que eu queria dizer…

-Fumaria até… mas não tenho cigarros…

Estavam em um quarto três estrelas de um motel. Olhando seus desnudos reflexos no espelho quase limpo do teto. E pensavam, em tudo, desde a origem do universo até se o lençol estava realmente limpo. Sentiam o álcool perder seu efeito sobre seus corpos e mentes.

– E aí, como… como…

Iria perguntar seu nome, mas depois pensou que não seria de bom tom, quem trepa com uma pessoa e nem mesmo sabe o seu nome? Não ia pegar bem… e que nomes na maioria das vezes nos trazem para realidades nem sempre desejadas. Realidades que tais nomes invocam. Se tivesse um nome seria uma pessoa, e não mais uma fantasia…

-Como, como o que?

– … como que faço pra arrumar um cigarro?

– Vamos embora, no caminho a gente compra.

– Tá bom…

Felipe Castro Lazarini

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No Ônibus

março 31, 2011 at 6:28 pm (Uncategorized)

 

– Menina, cê precisa ver o tanto que Jesus tá me deixando bonita!

Depois de ouvir tal exclamação, foi impossível não prestar atenção na conversa de ônibus, de duas distintas senhoras.

– Ah é?! 

– É mesmo, ontem ele fez essas luzes no meu cabelo… Não ficou bonito?

– Nossa, por Deus que ficou bom mesmo!

– Ele agora tá até me dando uns descontos, ou melhor ela… então ele ta precisando muito de dinheiro… você tambem devia ir lá no salão dele… tem que se cuidar amiga!

– Amiga, ta todo mundo precisando de dinheiro… Mas afinal de contas, porque ele tá precisando de dinheiro?

– Ele precisa fazer uma cirurgia e pra isso ele precisa fazer uma viagem internacional…

– Tadinho… mas é doença grave? ou coisa do tipo?

– Não sei se é doença… Ou é… ah sei lá! O que ele me disse é que houve um erro da natureza quando ele nasceu… ele é uma menina que nasceu no corpo de menino… vê se pode!

– Ah…

– Então ele precisa ir pra Tailândia fazer uma mudança de sexo.

  Pra minha infelicidade o meu ponto de desembarque chegou, e não teve como ouvir o desfecho da conversa. 

Felipe Castro Lazarini

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Lavadeiras

março 29, 2011 at 7:22 pm (Uncategorized)

 

– Pára de reclamar fia… que a roupa não fica limpa… e tristeza não paga dívida e nem enche barriga!

– Não to reclamando de lavar essa roupa, só que tá dificil prenha desse jeito!

– Pensa que cê já me deu esse memo trabaio!

– Pra sinhora vê que homem não serve pra nada, só pra encher o buxo das muié de semente de gente e mandar elas lavar as cuecas nojentas deles…

– É muita lida em pouca vida fia…

 E o sol se pôs de maneira majestosa, ao som da cachueira, ritmado pelas batidas de roupa estralando nas pedras.

Felipe Castro Lazarini

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Poison Tale

março 18, 2011 at 3:56 am (Uncategorized)

“[..] um exército negro, vingador,

que germinava lentamente nos sulcos da terra,

crescendo para as colheitas do século futuro,

cuja germinação não tardaria em

fazer rebentar a terra.”

Émile Zola

Por detrás de grandes estruturas de metal, besuntadas de gordura e detergente, ele se esconde. Com medo. Pavor. Com aquele tipo de pavor que alucina, daquele que deixa as pernas bambas. Como àquela sensação de incapacidade de correr quando somos presenteados por Morfeus com pesadelos.  Espreita, para, e pensa. E nem para muito menos pensa. Com sua camuflagem marrom, uma trama de pêlos e esgoto, ele atravessa uma engenhosa ponte reluzente de aço inox; via única para ultrapassar o grande lago de feijão podre.

Ele não gosta de feijão. Apesar de lhe agradar comidas podres e outras com cheiro mais refinado como queijo. E atrás de uma refeição, ele como todo ser vivente dessa terra, se atira atrás de seu sustento. Desce com rapidez tremenda, desfiando a toalha de mesa, de crochê.

Já fez coisas piores. Uma vez caiu de uma calha, dentro de uma poça com profundezas abissais. Não morreu, também não se afogou. Saiu correndo com o coração disparado e ficara dias em uma tubulação de esgoto, abaixo de nós. Começou a roer madeiras pré-moldadas, fiação elétrica, placas de computador, mas aí sabe como é ? Todo mundo, enche-se de sua rotina, e chegou uma hora que, ele se incomodou com os choques elétricos, e não eram poucos. Mas não se esquecerá jamais de tal época. Outros tempos… Hoje ele mora com alguém. Nunca mais passou fome. Tal espécie; a dos camundongos, com exceção a dos de laboratórios, esses… coitados…, são bêbados, fumantes, viciados em antidepressivos, anfetaminas, e mais as outros famigerados fármacos. São gordos, cheios de maquiagem, Avon, botox ou coisa parecida, enfim,  aberrações dos nossos tempos , mas são branquinhos, fofos e não dá a mínima vontade de matar…mas a ciência paga bem os seus carrascos.

A luz se acende, ele brinca de estátua. Ouve passos se aproximando. Ouve um grito. E não pensa duas vezes antes de correr, aliás, não deu tempo nem de pensar uma vez, quanto mais duas. Esconde-se. Com o coração disparado ele resolve abortar a missão de obter a tão desejada refeição noturna.

Acordou com o despertador mais antigo do mundo. O ronco provocado pelo vácuo de seu estômago. Sai à caça. Caçador ou presa? Avança sobre a altíssima prateleira. Sem sucesso. Desce correndo, e adentra o fogão, e só encontra migalhas que mais se assemelham a minúsculos pedaços de carvão.

Mata a sua sede em uma minúscula poça que a chuva o presenteou. Mas ele precisa de comida e não da clara água da chuva. Felizmente ou infelizmente, todos precisam de comida nessa gigantesca cidade, fétida moderna e imunda. Ele não desiste e vai atrás. Até que encontra um micro-pedaço de biscoito. Delicioso, comeu mais rápido do que a velocidade do seu paladar, e contrariando a lógica, fica com mais fome. Fome, muitas das vezes, foge à lógica. Na insensatez de sua fome, ele não desiste, escala móveis, fios e eletrodomésticos, e se embrenha pelas vielas mais sórdidas e escuras, que só um rato de esgoto poderia conhecer. Até que chega o dia.

Todo mundo tem esse dia, aquele tipo de dia, tudo e nada acontece naquele dia, dia de cão, ou melhor, de rato.

Ele avista o banquete como uma miragem. Um pedaço de queijo. Do tamanho de seu corpo. Agora ele pensa, até mais de duas vezes, umas quarenta vezes. Não acredita no que seus olhos vêem, nem no que o seu peludo nariz lhe dizia.  Era queijo, e o cheiro o entorpecia. Queijo! Devagar ele se aproxima, ele chega perto. Um enorme pedaço de queijo, no alto de um altar feito de arames, de uma arquitetura grotesca, ferros e molas numa tensão sem tamanho. Aquilo reluzia. Com todo o respeito que, um queijo merece, ele se aproxima lentamente, e Tsiiii TÁÁÁÁÁaaa!

 

TUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQTUQ ………. TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ TUQ…………….. TUQ  TUQ  TUQ  TUQ TUQ  TUQ  TUQ  TUQ  TUQ  …!   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ   TUQ    TUQ     TUQ     TUQ     TUQ       TUQ       TUQ           TUQ         TUQ         TUQ         TUQ        TUQ      TUQ      TUQ              TUQ              TUQ              TUQ               TUQ              TUQ TUQ                    TUQ                           TUQ                            TUQ       TUQ                             TUQ                                      TUQ                               TUQ                                                TUQ                                                                           TUQ                                                                     TUQ TUQ TUQ       TUQ TUQ TUQ TUQ !

Não deu tempo nem de ver a enorme manivela de ferro vindo em direção dele, foi a coisa mais rápida que já tinha visto, ou melhor, ouvido. Só ouvia o seu disparado coração; TUQ e TUQ.

Aquela enorme engenhoca assassina de ratos desavisados, destravou milésimos de segundos antes da triangular pequenina cabeça adentrar a área da guilhotina da ratoeira.

Correu feito um… um…, um rato mesmo. Nunca tinha visto aquela pavorosa máquina, agora nunca vai esquecer. Queijo nunca mais!

Viveu dias de dieta, emagreceu, ficou deprimido, ficou feliz e tornou a ficar triste novamente. Voltou a comer bem, se aventurou muito, e foi vivendo solitário, o que é raro em sua espécie. Por debaixo da pia da cozinha avistou um lindo pires de porcelana, coberto com ração de cachorro. Não chegou a sequer pensar em pensar duas vezes, pensou exatamente zero vez. Se ele pudesse numerar quantas vezes pensou, zero não seria o melhor número, teria que ser um número negativo, zero seria muito. Devorou tudo. Não gostou muito do gosto, tendia ao amargo. Depois achou o gosto meio ácido. Pensou de que tipo seria essa ração, de cachorro ou de gato ou vai saber o que?! Mas depois pensou que não poderia ser de cachorro, porque não tinha cachorro em seu habitat, muito menos gato, se tivesse saberia, com certeza. Ele achava que sabia de tudo.

Barriga cheia, e de repente, foi tomado por uma enorme necessidade de sair para a rua, começou a se sentir pequeno. Menor do que ele realmente é. Mas não sentia medo. Mesmo quando já começa a sentir dores. Começa a ver tudo com cores diferentes, tudo muito claro, sem contraste, desfocado, mas…

Ele estava achando tudo esplendoroso, no êxtase de sua agonia, ele, tromba, tropeça, o que não o impede de correr. Ele corria tanto que mal sentia as pernas, e tudo foi ficando claro, e ele pára, olha.

Dançando uma funesta dança, seus  refletem um imenso néon de uma zona, que tinha uma luz vermelha tão intensa, que fez com que ele sentisse uma dor ainda maior. Suas pupilas  foram ficando enormes e começou a não ver enxergar mais nada. Tudo ficou escuro, ele parou de sentir dor e entrou em praticamente um transe espiritual, também conhecido por nós hommo sapiens sapiens, como convulsão.

Debaixo de uma chuva fina, entre buzinas, luminosos e uma fumaça espessa que saía do bueiro, surge um felino felpudo, de uma multicolorida pelagem, metade provocada pela sujeira e a outra pela híbrida genética felina urbana. O bichano urbano avista aquele espalhafatoso rato, e seguindo a seus milenares instintos; salta.

Suas mandíbulas, máquinas tão perfeitas para executar tal tarefa.  Sete mordidas e o engole, ficou sentado, lavando a suas patas com sua língua lambuzada de sangue, e depois saiu, andando triunfalmente pela cidade. Achou uma gata no cio, dessas de todos e de ninguém. Dessas…

Vagando pela úmida e fria cidade. Lamberam latas. Deram uns gritos e miados.  Contribuíram com a perpetuação de sua urbana espécie, até o dia clarear. Depois o sorrateiro se entregou à Morfeo. Sonhou com um delicioso lixo, repleto de peixe. Não poderia o felpudo saber, que a sua Felina Morte estava vindo a cavalo, exatamente na velocidade de sua digestão. Pobre dele que não sabia que seria o seu último dia como voluntário da limpeza desse aglomerado de lares e bares, e que agora iria contribuir, de maneira bem pequena, com seu corpo em decomposição, para o tão singular odor dessa moderna e fétida cidade.

Uma chuva e duas noites, jazia o gato ao lado de uma lata de lixo. Uma enorme ratazana, que acabara de parir uma ninhada, revira o lixo à procura de comida, mas só encontra papel. Então, essa mãe contra tudo e contra todos, e mais ainda contra todos os seus princípios de sua moral de rato, se vê atraída pela carne decomposta. Fareja com receio, nunca deixou de ter receio dessa espécie, nem morto. A carne não é atrativa, nem para uma ratazana de esgoto faminta. Porém ela, com uma elegância aristocrática, devora-lhe os olhos.

Felipe Castro Lazarini

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